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INTRIGUISTA
uma história
de António
Botto Era um desses pardais atrevidos e intrometidos que andam sempre bedelhando na vida alheia, metendo o nariz aqui, esgravatando acolá, que fazem comentário de tudo quanto ouvem, e interrompem, com chalaças, a conversa mais ponderada sobre o assunto mais sério. Um dia, o coelho, de mau humor, ao recordar uma partida que o ouriço lhe fizera, berrou e disse que havia de vingar-se fosse como fosse.
- Se não apanhar o ouriço,
desforrar-me-ei no lobo ou em outro animal qualquer. E
até será melhor que eu me vingue num
animal mais corpulento, para verem como é forte a minha energia e notável
a minha destreza. O pardal,
empoleirado num ramo, ouviu as palavras do coelho e pôs-se a cantar: - Vou dizer ao lobo, re-piu-piu-piu. O coelho ficou assustado. Mas, de
repente, lembrou-se de que o melhor seria procurar o lobo, antes que o
pardal lhe fosse falar. E assim fez, desatando a correr, até que o
avistou sentado a um canto da estrada.
- Ora viva, amigo lobo. Ouvi dizer que o
meu caro andava com tenção de me matar, a mim, e a toda a minha família! - Quem é que lhe foi dizer isso? Quem
seria o intrujão? - Para quê, não vale a pena. Mas o lobo insistiu; e tanto insistiu
que, por fim, o coelho declarou que tinha sido o pardal. - E quando o pardal mo disse –
acrescentou – fiquei tão profundamente indignado que até perdi a cabeça!
E chamei-lhe coisas feias, fui atrevido, malcriado, você desculpa
certamente!, mas o caso não era para menos. O lobo esboçou um gesto de aceitação
e disse que, nessas circunstâncias, qualquer pode ter uma expressão
agressiva. Despediram-se cordialmente – e cada um foi para seu lado. Pouco depois, o pardal avistou o lobo: - Onde vai o amigo lobo?
O lobo fingia não ouvir, e o pardal
gritava com mais força: - Espere aí um bocadinho; tenho uma notícia
para lhe dar... O lobo continuou a fingir que não via nem ouvia e foi
deitar-se à sombra de uma azinheira, disposto para o assalto... O pardal,
incansável, voava de ramo em ramo, chamando, gritando, cantarolando...
Por fim, muito perto do lobo, e aos saltinhos, dizia, numa voz impaciente: - Tenho uma coisa a dizer-lhe; tenho uma
coisa a contar-lhe. - Venha mais perto, amigo pardal. Sou
surdo de um ouvido e do outro não oiço nada. O pardal deu um salto e pôs-se
em cima do lobo. - Mais perto, pardal amigo. Deste ouvido
não entendo e do outro também não.
O pássaro, então, saltou para a cabeça
do lobo. - Ainda é longe, pardal: pouse aqui
sobre os meus dentes e conte lá esse caso. O pardal apressou-se a entrar na boca do
lobo, e nunca mais ninguém o viu.
Esta história é de António Botto e as imagens foram retiradas da internet.
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