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  A BORBOLETA                   texto Ana ramalhete / ilustrações Pedro Ferreira

  O Apetite de Matreiro        texto Ana Ramalhete / ilustrações de Rita Pessoa
  A paixão do ouriço               texto Ana ramalhete / ilustrações Pedro Ferreira
  O Abismo dos Encantados   texto Sara Monteiro / ilustrações Pedro Ferreira
  Camelo procura camela           texto Ana Ramalhete /ilustrações Rita Pessoa

 

O APETITE DE MATREIRO

  No corredor de Leonor havia um grande aquário que ia da porta até ao armário. O gato Matreiro gostava de olhar os peixes e pensar qual deles havia de comer primeiro.

- O dourado grelhado? O preto no espeto? 

O encarnado salteado? O branco em cima do banco?... e os azuis, todos juntos em caldeirada ou misturados numa salada? Um de cada vez será melhor, fico a saborear desde o almoço até ao jantar.

Matreiro observava-os de longe e de perto, com o seu bloco de notas aberto. Pareciam-lhe todos tão apetitosos que os seus olhos ficavam logo gulosos.

         - Tiro à sorte por qual começo, assim de nenhum deles me esqueço.

Com o entusiasmo, empoleirava-se no aquário, a olhar, mudo de pasmo. Logo aparecia a Leonor que lhe dizia em tom ameaçador:” Matreiro, se tocas nos peixes, ficas preso o tempo inteiro”.

Contudo, quando o gato pensava em devorar os peixes com grande aparato, hesitava, vacilava e antes decidia contemplá-los a moverem-se na sua suave calmaria. Custava-lhe admitir que gostava deles, pois como dizia o Professor Apeles: “felino que seja digno, não tem sentimentos por futuros alimentos”.

         No dia em que Matreiro estava atrás de um formigueiro, Leonor trouxe para casa um novo morador- era um animal, que fez o gato sentir-se mal. Tinha pêlo comprido, focinho aguerrido, orelhas levantadas e patas atarracadas. Era um cão que rosnava e rugia como um leão. E Leão foi o nome escolhido para o animal recentemente aparecido.

         Matreiro resolveu ignorá-lo, não fosse o outro hostilizá-lo. Continuava a sua actividade preferida com cautela e atenção desmedida. Pelo sim, pelo não, para ficar longe do Leão, punha-se em cima do armário para espreitar para dentro do aquário.

Leão via mas não reagia. Deitava-se no seu canto e pensava:

- Aquele gato está a pedir desacato. O que é que eu faço primeiro ao Matreiro? Dou-lhe uma dentada valente na pata da frente? Uma pisadela na cauda amarela? Ou uma patada que o faça voar até à entrada?

Com frequência, os dois mediam forças com os olhares, sem se mexerem dos seus lugares.

Leonor admirava-os com amor e corria a casa da vizinha, a sua amiga Clarinha, para lhe contar como era bom ter animais para estimar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

Certa vez, Leonor saiu para jogar xadrez e nem reparou que a porta não se fechou. Ora, naquele instante, ia a passar, ali adiante, o conhecido ladrão de peixes e peixinhos, famoso por deixar berlindes em troca dos surripiados bichinhos.

O ladrão não se fez rogado, entrou e foi direito ao aquário cobiçado. Pegou na sua rede de pesca e com deslumbramento foi apanhando os peixes em movimento.

Não reparou no gato, não reparou no cão, tão concentrado estava em roubar para aumentar a sua colecção.

Matreiro e Leão, com uma cumplicidade nascida da ocasião, resolveram atacar sem perder tempo a guerrear. Com ardil, atiraram-se ao ladrão e cada um ferrou-lhe os dentes num pernil.

-         Os peixes são nossos! – miou o gato.

-         Os peixes são nossos! – ladrou o cão.

-         Ai, ai, as minhas pernas! – gritou o ladrão.

No meio desta confusão, os berlindes do ladrão caíram do saco e espalharam-se pelo chão, fazendo-o escorregar, cair e desmaiar.

Leonor, na casa ao lado, desconfiou de tanto barulho inesperado. Imediatamente foi indagar, sem sequer imaginar aquilo que ia encontrar.

No corredor de Leonor, Matreiro e Leão estavam em cima do ladrão, o gato assanhado, o cão feroz e desorientado. Pelo meio berlindes espalhados, água entornada, peixes assustados.

Aflita, Leonor chamou Clarinha e as duas sentaram o ladrão numa cadeirinha. Este prometeu devolver os peixes que tinha furtado, um pouco por todo o lado. Para provar que falava verdade, pediu às meninas que o acompanhassem na volta pela cidade.

Leonor estava orgulhosa dos dois animais, defenderam os peixes e foram muito leais, até se esqueceram de se comportar como rivais.

No dia seguinte, Leonor teve um presente que deixou Matreiro muito contente. Para o aquário vieram novos habitantes, um cavalo-marinho e três peixes, estranhos e fascinantes.

O gato, do seu canto, conspirava enquanto apreciava.

- Que peixe esquisito é este bicho marinho, tem cabeça de cavalo e nada tão devagarinho. Hum, mesmo vagaroso tem um ar apetitoso. Pode ser um novo alimento para o meu sustento.

E os outros três são tão coloridos, às risquinhas... Será que têm muitas espinhas? Vou esperar e deixá-los dar umas voltinhas, depois...

No seu posto de vigia, Leão congeminava enquanto assistia.

- Se o Matreiro tocar no aquário, tranco-o dentro do armário. Fica sem comer e sem beber. Ou então, leva um safanão para aprender a não ser glutão. Ou então...

 

  texto de Ana Ramalhete

  ilustrações de Rita Pessoa

 
  O Apetite de Matreiro        texto Ana Ramalhete / ilustrações de Rita Pessoa
  A paixão do ouriço               texto Ana ramalhete / ilustrações Pedro Ferreira
  O Abismo dos Encantados   texto Sara Monteiro / ilustrações Pedro Ferreira
  Camelo procura camela        texto Ana Ramalhete/ ilustrações Rita Pessoa

 O Abismo dos Encantados  

Conta-se que certa quinta, em Olhão, que hoje em dia é regada por um grande veio de água, já foi em tempo de uma secura tão grande que dava pena olhar para ela.

Hoje em dia, quem por lá passa e a vê tão fértil, pensa que foi sempre assim. Mas não é verdade.

No tempo dos árabes, era dono dessa propriedade um mouro muito rico, que vivia numa espécie de palácio, sozinho com sua filha.

Esta filha era lindíssima, de uma beleza sem igual. Vivia muito guardada por seu pai, que não queria que ela olhasse para ninguém nem que ninguém olhasse para ela. Coisa que a moura conseguia contornar, indo sempre que podia para a janela ver passar gente, sentir a brisa no rosto e cheirar a Primavera.

Muitas vezes a viam de longe, à janela, com os cabelos caindo para fora, muito negros e brilhantes, tão compridos que o coração dos rapazes batia mais depressa só de os olhar ao longe. Ficavam imaginando como seria ao perto a dona de tão extraordinários cabelos, como seriam as suas belezas: o tamanho dos seus olhos, o contorno da sua boca, o brilho da sua pele, o tom da sua voz, e tanto pensavam nisso que todos os dias choviam pedidos de casamento ao pai de tão longínqua donzela.  

O pai, esse, corria com todos, inventando as mais inverosímeis desculpas. Entre todos esses pretendentes havia um mais determinado e mais apaixonado do que os outros, um rapaz cheio de qualidades, muito artista, grande músico e grande poeta.

Esse jovem passava a vida a fazer versos à moura da janela, que era a moura da sua vida, e depois acompanhava os versos com música. O efeito desses cantares era variado, pois se por um lado encantavam a filha, por outro, arrepiavam o pai.  

O velho pai andava de cabeça perdida. Ralhava com a filha, mandava-a fechar a janela, trocava-a de quarto, trancava-a, mas a música do pretendente entrava pelo palácio adentro como se tivesse vida própria e ia ter sempre onde ela se encontrava.

Então mudou de estratégia. Como se julgava muito esperto, resolveu fingir que começava a interessar-se por aquele amor. "Que amor!" comentava ele fingindo-se muito admirado. Mandou chamar o rapaz poeta e pediu--lhe uma coisa impossível. E o que é uma coisa impossível? Uma coisa impossível é qualquer coisa que a imaginação se lembre e que só a imaginação pode realizar. Neste caso a coisa impossível que o velho pai se lembrou foi pedir ao rapaz que lhe trouxesse a nascente da Fonte do Canal, para regar as suas terras muito secas.

O rapaz poeta só quis saber se a nascente se encontrava muito longe. O velho respondeu muito sério, sem se rir nem nada: "Treze léguas". Porque é claro que não importa se uma nascente fica longe ou perto, o que importa é que não se pode trazê-la de parte nenhuma. Não se mexe numa nascente.

O rapaz foi-se embora em silêncio. O pai da moça ficou tão contente que fez uma festa. Nessa noite não ouviu aquelas cantorias detestáveis que tanto lhe desagradavam a entrar pela sua casa e ainda mais contente ficou. Nem a alegria esmoreceu quando ouviu a filha a chorar no quarto; não. Ficou felicíssimo. Porque era bom sinal; sinal de que o pretendente nunca mais ia voltar.

Porém, caso estranho! Ainda mal tinha começado a dormir, ainda nem tinha começado a sonhar, quando foi acordado por uma melodia familiar. Estupefacto, reconheceu a voz do jovem poeta. Trôpego, levantou-se da cama e foi a correr à janela do seu quarto.

E o que é que ele viu? Em frente da janela do quarto de sua filha havia agora um abismo de onde jorrava água suficiente para regar toda a propriedade. E ao lado do abismo, estava o jovem poeta a tocar o alaúde e a olhar enlevado a sua amada.

Além de poeta, o mouro apaixonado tinha conseguido o impossível: transformar em realidade uma coisa que só podia pertencer ao mundo da imaginação e dos desejos. Trouxera a nascente.

O velho mouro louco de raiva dirigiu-se ao quarto de sua filha, viu que ela estava à janela olhando embevecida o seu amor e perdeu a cabeça e a razão. Pegou nela e atirou-a pela janela sobre o pretendente, com tal força, que este se desequilibrou e caiu com ela para o fundo do abismo.

Felizmente não morreram. Também não se pode dizer que viveram: estão encantados. Muitas são as pessoas que os vêem a sair do abismo à meia-noite: sempre abraçados e cantando ao som do alaúde. De manhã regressam ao abismo que é a sua casa.

O velho mouro também vive encantado, mas no castelo. Nas noites de tempestade sai para a rua cantando cheio de soberba canções que enaltecem a sua pessoa e testemunham o seu mau carácter. Nessas noites toda a gente fecha a janela e tapa os ouvidos, pois odeiam de morte aquele pai cruel e as suas canções.

 

Melhor do que eu não há

Toda a vida fiz o que quis

Faço, prego, torço, espeto

Danço, canto, sou feliz.  

 

texto de Sara Monteiro

(recriação de uma lenda algarvia)

ilustrações de Pedro Ferreira

 
  O Apetite de Matreiro        texto Ana Ramalhete / ilustrações de Rita Pessoa
  A paixão do ouriço               texto Ana ramalhete / ilustrações Pedro Ferreira
  O Abismo dos Encantados   texto Sara Monteiro / ilustrações Pedro Ferreira
  Camelo procura camela           texto Ana Ramalhete /ilustrações Rita Pessoa

 

CAMELO PROCURA CAMELA

          Procuro uma camela

            com quem possa partilhar

            as travessias que faço

            de  manhã ao luar.

  

            Tenho longas pestanas,

            pêlo espesso tão macio,

patas fortes tão elegantes,

e uma cor quente

que se confunde com a terra.

 

As minhas bossas

parecem dunas de areia

Quando caminho,

o ondular do meu corpo

a atravessar a paisagem,

é como um barco

a cortar o mar.

E o som dos meus passos

é a música que embala

o vento no ar.

 

Aguento a sede,

não temo a tempestade.

Suporto o sol, o calor e o frio,

sem sentir qualquer dor.

Transporto pessoas e cargas,

sou capaz de subir e descer

devagar como um elevador.

 

À noite,

à volta da fogueira,

gosto de ouvir as histórias

que os homens contam.

Umas tristes, outras belas,

aprendo muito com elas.

E adormeço sempre descansado

com as estrelas a meu lado.

Sei fugir das areias movediças,

encontrar oásis,

assustar cobras

e afugentar escorpiões.

 

Sou essencial ao deserto

e o deserto faz parte de mim.

Mas, quando quero sair daqui,

a minha imaginação

leva-me a lugares diferentes,

que já conheço

de ouvir falar.

Grandes florestas cheias de árvores,

montanhas a tocarem o céu,

oceanos azuis sem fim.

Posso ir de comboio, de avião,

de tapete voador...

O que surgir na ocasião.

 

No entanto,

falta-me uma companhia

que comigo queira viajar

e por mim

se deixe encantar.

Podemos conversar sem parar

e namorar, namorar.

  

texto de Ana Ramalhete

ilustração de Rita Pessoa

   

 

 

 

 

  

    

 

 

 

 
  O Apetite de Matreiro        texto Ana Ramalhete / ilustrações de Rita Pessoa
  A paixão do ouriço               texto Ana ramalhete / ilustrações Pedro Ferreira
  O Abismo dos Encantados   texto Sara Monteiro / ilustrações Pedro Ferreira
  Camelo procura camela           texto Ana Ramalhete /ilustrações Rita Pessoa
 
HISTÓRIAS QUEM FOI ? PASSEAR PARTICIPAR NOTÍCIAS