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O Abismo dos
Encantados Conta-se que certa quinta, em Olhão, que hoje em dia é
regada por um grande veio de água, já foi em tempo de uma secura
tão grande que dava pena olhar para ela. Hoje em dia, quem por lá passa e a vê tão fértil,
pensa que foi sempre assim. Mas não é verdade. No tempo dos árabes, era dono dessa propriedade um mouro
muito rico, que vivia numa espécie de palácio, sozinho com sua
filha. Esta filha era lindíssima, de uma beleza sem igual. Vivia
muito guardada por seu pai, que não queria que ela olhasse para ninguém
nem que ninguém olhasse para ela. Coisa que a moura conseguia
contornar, indo sempre que podia para a janela ver passar gente,
sentir a brisa no rosto e cheirar a Primavera. Muitas vezes a viam de longe, à janela, com os cabelos
caindo para fora, muito negros e brilhantes, tão compridos que o
coração dos rapazes batia mais depressa só de os olhar ao longe.
Ficavam imaginando como seria ao perto a dona de tão extraordinários
cabelos, como seriam as suas belezas: o tamanho dos seus olhos, o
contorno da sua boca, o brilho da sua pele, o tom da sua voz, e tanto
pensavam nisso que todos os dias choviam pedidos de casamento ao pai
de tão longínqua donzela. O pai, esse, corria com todos, inventando as mais
inverosímeis desculpas. Entre todos esses pretendentes havia um mais
determinado e mais apaixonado do que os outros, um rapaz cheio de
qualidades, muito artista, grande músico e grande poeta. Esse jovem passava a vida a fazer versos à moura da
janela, que era a moura da sua vida, e depois acompanhava os versos
com música. O efeito desses cantares era variado, pois se por um lado
encantavam a filha, por outro, arrepiavam o pai. |
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O velho pai andava de cabeça perdida. Ralhava com a
filha, mandava-a fechar a janela, trocava-a de quarto, trancava-a, mas
a música do pretendente entrava pelo palácio adentro como se tivesse
vida própria e ia ter sempre onde ela se encontrava. Então mudou de estratégia. Como se julgava muito
esperto, resolveu fingir que começava a interessar-se por aquele
amor. "Que amor!" comentava ele fingindo-se muito admirado.
Mandou chamar o rapaz poeta e pediu--lhe uma coisa impossível. E o
que é uma coisa impossível? Uma coisa impossível é qualquer coisa
que a imaginação se lembre e que só a imaginação pode realizar.
Neste caso a coisa impossível que o velho pai se lembrou foi pedir ao
rapaz que lhe trouxesse a nascente da Fonte do Canal, para regar as
suas terras muito secas. O rapaz poeta só quis saber se a nascente se encontrava
muito longe. O velho respondeu muito sério, sem se rir nem nada:
"Treze léguas". Porque é claro que não importa se uma
nascente fica longe ou perto, o que importa é que não se pode
trazê-la de parte nenhuma. Não se mexe numa nascente. O rapaz foi-se embora em silêncio. O pai da moça ficou tão
contente que fez uma festa. Nessa noite não ouviu aquelas cantorias
detestáveis que tanto lhe desagradavam a entrar pela sua casa e ainda
mais contente ficou. Nem a alegria esmoreceu quando ouviu a filha a
chorar no quarto; não. Ficou felicíssimo. Porque era bom sinal;
sinal de que o pretendente nunca mais ia voltar. Porém, caso estranho! Ainda mal tinha começado a dormir,
ainda nem tinha começado a sonhar, quando foi acordado por uma
melodia familiar. Estupefacto, reconheceu a voz do jovem poeta. Trôpego,
levantou-se da cama e foi a correr à janela do seu quarto. E o que é que ele viu? Em frente da janela do quarto de
sua filha havia agora um abismo de onde jorrava água suficiente para
regar toda a propriedade. E ao lado do abismo, estava o jovem poeta a
tocar o alaúde e a olhar enlevado a sua amada. Além de poeta, o mouro apaixonado tinha conseguido o
impossível: transformar em realidade uma coisa que só podia
pertencer ao mundo da imaginação e dos desejos. Trouxera a nascente. O velho mouro louco de raiva dirigiu-se ao quarto de sua filha, viu que ela estava à janela olhando embevecida o seu amor e perdeu a cabeça e a razão. Pegou nela e atirou-a pela janela sobre o pretendente, com tal força, que este se desequilibrou e caiu com ela para o fundo do abismo. |
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Felizmente não morreram. Também não se pode dizer que
viveram: estão encantados. Muitas são as pessoas que os vêem a sair
do abismo à meia-noite: sempre abraçados e cantando ao som do alaúde.
De manhã regressam ao abismo que é a sua casa. O velho mouro também vive encantado, mas no castelo. Nas
noites de tempestade sai para a rua cantando cheio de soberba canções
que enaltecem a sua pessoa e testemunham o seu mau carácter. Nessas
noites toda a gente fecha a janela e tapa os ouvidos, pois odeiam de
morte aquele pai cruel e as suas canções. Melhor do que eu não há Toda a vida fiz o que quis Faço, prego, torço, espeto Danço, canto, sou feliz.
texto de Sara Monteiro (recriação de uma lenda algarvia) ilustrações de Pedro Ferreira |
| O Apetite de Matreiro texto Ana Ramalhete / ilustrações de Rita Pessoa | |
| A paixão do ouriço texto Ana ramalhete / ilustrações Pedro Ferreira | |
| O Abismo dos Encantados texto Sara Monteiro / ilustrações Pedro Ferreira | |
| Camelo procura camela texto Ana Ramalhete /ilustrações Rita Pessoa | |
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Procuro uma camela com quem possa partilhar as travessias que faço de manhã ao luar. Tenho longas pestanas, pêlo espesso tão macio, patas fortes tão elegantes, e uma cor quente que se confunde com a terra. As minhas bossas parecem dunas de areia Quando caminho, o ondular do meu corpo a atravessar a paisagem, é como um barco a cortar o mar. E o som dos meus passos é a música que embala o vento no ar. Aguento a sede, não temo a tempestade. Suporto o sol, o calor e o frio, sem sentir qualquer dor. Transporto pessoas e cargas, sou capaz de subir e descer devagar como um elevador. À noite, à volta da fogueira, gosto de ouvir as histórias que os homens contam. Umas tristes, outras belas, aprendo muito com elas. E adormeço sempre descansado com as estrelas a meu lado. Sei fugir das areias movediças, encontrar oásis, assustar cobras e afugentar escorpiões. Sou essencial ao deserto e o deserto faz parte de mim. Mas, quando quero sair daqui, a minha imaginação leva-me a lugares diferentes, que já conheço de ouvir falar. Grandes florestas cheias de árvores, montanhas a tocarem o céu, oceanos azuis sem fim. Posso ir de comboio, de avião, de tapete voador... O que surgir na ocasião. No entanto, falta-me uma companhia que comigo queira viajar e por mim se deixe encantar. Podemos conversar sem parar e namorar, namorar.
texto de Ana Ramalhete ilustração de Rita Pessoa |
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| O Apetite de Matreiro texto Ana Ramalhete / ilustrações de Rita Pessoa | |||||
| A paixão do ouriço texto Ana ramalhete / ilustrações Pedro Ferreira | |||||
| O Abismo dos Encantados texto Sara Monteiro / ilustrações Pedro Ferreira | |||||
| Camelo procura camela texto Ana Ramalhete /ilustrações Rita Pessoa | |||||
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