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                                  CLARICE E O AMIGO

 

 Clarice era uma menina muito curiosa que gostava muito de palavras e que tinha um amigo que também gostava muito de palavras.

Quando se juntavam falavam de palavras doces e de palavras amargas; de palavras que sabiam bem e de palavras que sabiam mal. Assim ficavam a mastigar e a saborear palavras.

Também faziam versos, inventavam canções, imaginavam histórias.

Os dois aprenderam a declamar para a lua. Abriam a janela, enchiam o peito de ar e começavam a recitar:

Quero um

Chapéu de vento

Quero um

Lenço de mar

Quero um

Vestido de ar quente

Quero um

Casaco de água doce

Quero um

Sapato de luz

E outro de luar

Porém, certo dia, Clarice soube que o amigo ia partir para outro lugar e que esse momento estava cada vez mais próximo. Mal começasse o Outono, ia perder a sua companhia.

Então, tentaram aproveitar cada hora, cada minuto, cada segundo do tempo que tinham para passar juntos. Passeavam no jardim, apanhavam frutos das árvores, subiam aos montes e gritavam ao vento; andavam de baloiço, jogavam à bola e continuavam a gostar de palavras, de as mastigar e de as saborear dentro da boca.

Num desses momentos, estava Clarice com a palavra chocolate debaixo da língua, quando teve uma ideia tão deliciosa que logo a transmitiu ao amigo.

- Vamos ficar longe, separados no mapa, mas podemos continuar muito perto um do outro, através das palavras. Podemos combinar uma hora à noite para olharmos para a lua e declamarmos o nosso poema; podemos registar todas as palavras novas que aprendermos, as que saibam bem e as que saibam mal, para depois trocarmos; podemos continuar as nossas histórias, inventar novas canções...

-  Sim, – interrompeu o amigo – vamos estar sempre perto através das palavras.

Na semana que antecedeu a partida do amigo, Clarice começou a sentir uma impressão na garganta e uma dificuldade em engolir.

Na altura da despedida, pouco falou, assaltada por uma enorme incapacidade de pronunciar certos termos. Ainda conseguiu dizer adeus mas logo engoliu o vocábulo que muito custou a descer pela garganta, pois tinha um sabor deveras desagradável.

Foi a correr para casa e durante toda a tarde só conseguiu pensar em palavras azedas. À noite, abriu a janela, olhou para a lua e começou a declamar baixinho: “quero um / chapéu de vento...” Olhou de novo para a lua e viu a cara do seu amigo a sorrir e a gritar: “quero um / chapéu de vento...”

“Vamos estar sempre perto um do outro através das palavras” – murmurou Clarice.

Nesse mesmo instante, os seus pensamentos foram inundados por um mar de palavras doces. A menina deixou-as flutuarem ao sabor da corrente e em seguida mastigou-as uma a uma, demorando-se um bocadinho mais na palavra amigo.

 

 

história de Ana Ramalhete