FILOSOFIA
A Morte na História
O Homem parece ser o único, de entre todos os seres vivos, a ter consciência da inevitabilidade da sua própria morte e das limitações que esta coloca à duração temporal da sua vida e daqueles que o rodeiam.
Esta consciência da morte aparenta ser tão antiga quanto o próprio Homem. Desde tempos remotos1 que o Homem, em todos os cantos do Mundo, constrói túmulos para sepultar os mortos, presta-lhes culto através de rituais específicos e estipula regras acerca do comportamento adequado dos enlutados. Desde então, a morte sempre suscitou um misto de curiosidade e inquietação e constituiu-se como um mistério (Oliveira, 1999).
Em busca de compreensão para a morte geraram-se mitos e religiões, doutrinas filosóficas, abordagens científicas, obras de arte e de literatura, cuja finalidade parece ser a de atenuar o medo do desconhecido perante o qual a morte nos coloca (Barros de Oliveira, 1998).
Segundo Kastenbaum e Aisenberg (1983: 1): "Se a Humanidade desconhecesse a morte, então talvez, não nos teríamos tornado tão conscientes da nossa vida, tão auto-conscientes".
Em suma, os autores referidos parecem querer afirmar que a consciência da morte é o fogo de Prometeu dado à Humanidade desde o seu alvorecer e que é do confronto com essa realidade que, em todos os tempos, nasceram culturas várias plenas de rituais e monumentos para exorcizar o sentimento de finitude suscitado pela morte.
Apesar do conhecimento da morte nos acompanhar desde tempos imemoriais, a nossa relação com ela diferente e mutável ao longo dos séculos. O lugar da morte não tem sido simples nem estável, quando retrocedemos na História da Humanidade que fomos.
Passaremos a descrever resumidamente a forma como foi encarada a morte ao longo dos tempos.
Da Pré-História à Idade Média
Segundo Thomas (1992), foi o Homem de Neandertal que começou a enterrar os seus mortos ao invés de os deixar à mercê dos animais necrófagos, como sucedia com os seus antepassados. Para tal, abria cavidades em rochas, onde os corpos eram colocados de cócoras e cobertos de pedras. À sua volta eram dispostos os seus objectos habituais e oferendas alimentares.
No Paleolítico Superior (cerca de 30 000 a 8 000 anos a.C.), o Homem de Cro-Magnon, apresentava um ritual funerário diferente: os corpos encontravam-se esticados na posição horizontal de costas para baixo, ou em posição fetal, sendo as oferendas funerárias mais diversificadas do que na época anterior.
No Mesolítico, época dos últimos caçadores recolectores, passam a ser mais comuns as sepulturas colectivas ao invés das individuais. As sepulturas são ovais e pouco profundas sendo recobertas por uma grande pedra e os corpos decorados com ocre vermelho e com oferendas incluindo adornos feitos de conchas e dentes de animais perfurados.
Estas sepulturas colectivas constituem a base dos rituais de sepultamento durante o Neolítico e na Idade do Bronze. Nesta época vão surgir os célebres dólmens ou antas, monumentos funerários e de culto religioso, onde eram sepultados ritualmente vários corpos. É também nesta época que surgem as trepanações rituais post-mortem da calota craniana (Poirier, 1998).
Desde então, poucas culturas se mostraram tão ricas e diversas, no que diz respeito aos rituais funerários, quanto a egípcia. Um dos mais importantes legados para a História da Humanidade, em matéria de rituais funerários, foi-nos deixado pelos egípcios: o Livro dos Mortos do antigo Egipto. De acordo com Trindade (1991, in Livro dos Mortos do Antigo Egipto) este é o mais antigo livro ilustrado do Mundo e a sua origem remonta à V Dinastia (ano 2345 A.C.). Este Livro é composto por uma série de fórmulas importantes, de hinos, prescrições, orações, exposições da criação, indicações sobre as diferentes divindades que o morto deveria conhecer, textos mágicos de protecção contra animais necrófagos, entre outros.
Todos os egípcios ambicionavam fazer-se acompanhar de um Livro dos Mortos na sua viagem para o além, porque nele encontravam os caminhos para a salvação da sua alma. Desta forma, os egípcios não temiam a morte pois o livro orientava-os para além dela. O próprio túmulo era decorado com cenas da vida para além da morte e os objectos nele colocados eram os considerados necessários para que, ao acordar para a vida depois da morte, a alma se sentisse familiarizada com tudo à sua volta e não temesse a morte nem desejasse vingança dos vivos (Vanoyeke, 1999).
Na cultura clássica greco-romana perduram rituais semelhantes aos do antigo Egipto tais como as manifestações públicas de tristeza dos familiares próximos destacando-se as carpideiras contratadas para chorar efusivamente o morto, de forma a manifestar o apreço dos vivos e apaziguar a sua alma. Um dos rituais instituídos era o da cremação do corpo em piras funerárias.
Segundo Davies (1999), os povos Gregos e Romanos procuravam a perpétua recordação dos seus mortos e para tal esculpiam estátuas para a posteridade, transformando os seus entes queridos em monumentos.
Da Idade Média à Época Actual
Ariés (1988, 2000) procurou sistematizar o percurso das atitudes das sociedades ocidentais face à morte desde o início da Idade Média e até à época actual. Identifica assim um conjunto de fases que procuraremos explanar sucintamente.
Fase I – A Morte Domada
É sobretudo característica da baixa Idade Média em que o Homem acreditava que sabia quando iria morrer, através de visões, premonições ou outros sinais.
Era uma época em que a fronteira entre o natural e aquilo que se designa hoje por sobrenatural era muito ténue. Acreditava-se na omnipresença dos mortos entre os vivos sendo a sua presença apenas sentida por aqueles cuja hora da morte se aproximava. Neste período, surgem numerosos relatos de pessoas que morriam no dia e na hora que haviam previsto e que para tal se preparavam.
A morte era esperada maioritariamente em casa, na cama, e o moribundo encontrava-se rodeado de parentes, amigos e vizinhos e até mesmo de crianças que vinham despedir-se e prestar a sua última homenagem. O moribundo pedia o seu perdão a todos e deixava as suas recomendações para os que lhe sucediam nas responsabilidades. O corpo era cuidadosamente embrulhado num lençol e deste modo era sepultado. Os cuidados prestados ao corpo eram realizados, a troco de uma pequena quantia de dinheiro, por mulheres de baixa condição social que também assistiam aos partos. A forma como o corpo era embrulhado no momento do nascimento era a mesma como o era feito depois da sua morte.
Embora revestida de ritos cumpridos cerimonialmente, a morte era aceite com familiaridade e sem excessiva manifestação de tristeza porque estava demasiado presente para ser ignorada numa época em que os meios de prevenção e tratamento médicos eram ainda muito rudimentares.
Fase II – A Morte de Si Mesmo
Esta atitude surge a partir do século XI e traduz uma fase em que o Homem começa a preocupar-se com a própria morte e com o que virá depois. O Homem procura garantias para a vida depois da morte, através de ritos de absolvição dos seus pecados, orações aos mortos, donativos, missas rezadas após a morte e testamentos para doar os seus bens à Igreja e aos pobres.
Surge a ideia de que existe um Juízo Final, perante o qual todos os Homens têm de prestar contas após a sua morte.
Entre os séculos XIII e XVII assiste-se a uma mudança nos rituais funerários que passam a utilizar o caixão como forma de ocultar o corpo morto da visão. As inscrições anteriormente colocadas junto ao túmulo, são substituídas por placas gravadas colocadas agora, nas paredes das Igrejas. Nestas placas constavam para além da identificação do falecido e da localização exacta do seu corpo, as doações e os compromissos assumidos pelos familiares do morto face à Igreja.
Fase III – A Vida no Corpo Morto
Até ao séc. XVIII a morte vai ser perspectivada de uma outra forma. A observação de que o corpo após a morte mantém resíduos de vida - que pêlos e unhas continuam a crescer e que existem secreções – levam a superstições populares de que o corpo depois da morte ainda ouve e se lembra.
O medo predominante, entre os séculos XVII e XVIII, era o de se ser enterrado vivo. Deste receio, vão emergir vários ritos e cerimónias para atrasar o sepultamento tais como velórios de 48 horas. A morte só é realmente reconhecida quando o corpo entra em decomposição.
Surgem também amuletos macabros feitos a partir dos ossos dos que morreram e que servem para proteger os vivos da morte que afectou o outro (por ex.: era comum os soldados que iam combater levarem consigo o dedo de um soldado morto em combate). Também se gera toda uma farmacopeia tendo como matéria prima, o corpo morto constituindo os ossos e alguns órgãos específicos os principais ingredientes para curar todo o género de males que afectavam o Ser Humano. Os corpos mais procurados, pelas suas propriedades terapêuticas, eram os de homens saudáveis que tivessem morrido de uma forma violenta.
Fase IV – Da Morte do Outro
A partir do séc. XIX, a morte passa a ser romântica, bela e sublime, permitindo a união dos seres que em vida são apartados. Existe uma marcada crença na vida para além da morte, embora se dissipe a ideia de Juízo Final ou a de Inferno. A morte traduz a possibilidade de evasão e de libertação da alma.
O medo dominante era o de que as almas dos mortos (os desencarnados) viessem perturbar os vivos.
Um aspecto interessante nesta época é o desaparecimento das cláusulas piedosas dos testamentos (donativos à Igreja) e o regresso à simplicidade nos rituais funerários. No entanto, cultiva-se a recordação dos mortos com uma grande intensidade afectiva, outrora inusitada.
Fase V – A Fase da Morte Invertida
Este panorama vai surgir sobretudo a partir de 1918, ou seja a partir da I Grande Guerra Mundial, e acompanha-nos até ao momento actual.
O local mais comum da morte deixa de ser a casa para passar a ser o hospital, onde a morte é ocultada e a família muitas vezes afastada.
O hospital do séc. XX já não é apenas um local onde se cura e onde se pode morrer por causa de um fracasso terapêutico, mas transformou-se no lugar normal da morte.
Ao transferir a morte para o hospital, esta deixa de pertencer ao moribundo, ou à sua família e começa, ao invés de tudo o que se passou anteriormente, a ser um momento regulado e organizado por uma burocracia cuja intenção é a de que a morte perturbe o menos possível a sociedade em geral. A sociedade protege-se assim das tragédias quotidianas da morte a fim de poder prosseguir as suas tarefas sem emoção nem obstáculos.
Hoje em dia, o tempo da morte alargou-se consoante a vontade humana que, não a podendo suprimir pode regular a sua duração adiando o que seria o momento da morte em dias, semanas, meses e nalguns casos anos, através do uso de fármacos e de tecnologias de suporte da vida que só no nosso século passaram a existir.
O próprio conceito de morte se especializa. Os sinais antigos, como a paragem do coração e da respiração deixam de ser suficientes e surge o conceito de morte cerebral2 medida por um electroencefalograma, a determinar a morte biológica.
Nesta fase histórica, a notícia de uma morte possível é muitas vezes ocultada do moribundo ao qual é negada a possibilidade de se preparar para a sua própria morte. Se o moribundo se apercebe de que vai morrer, a atitude que se espera dele é que aceite o fim da sua vida, comportando-se como se não soubesse que vai morrer.
A boa morte é a que não se pressente e passa despercebida, como morrer a dormir, apenas com um breve suspiro a anunciar o termo da vida.
Actualmente assiste-se a uma pressão impiedosa da sociedade, no sentido de suprimir a manifestação pública do luto, bem como a sua expressão privada "demasiado" insistente e longa. A pessoa enlutada é votada ao isolamento social, como se estivesse sujeita a um período de quarentena. Há uma recusa do tema da morte, como se fosse contagioso, "como se cada Homem, perante a morte dos seus semelhantes, tivesse a antevisão da sua própria morte" (Bernardo, 1999: 3)
O silêncio tornou-se a atitude mais comum no confronto com a morte. A morte foi reduzida a um momento de passagem biológica, desprovida de significado, que não despedaça nem perturba os que ouvem dela falar e que não provoca angústia nos sobreviventes. "Morrer tornou-se um acto solitário e impessoal" (Kubler Ross, 1991: 19)
A sociedade actual construiu a ideia de que é possível expulsar a morte da vida. A consequência, segundo Henezel e Leloup (1998) é que começamos agora a pagar com uma ausência de sentido o corte que veio separar-nos das grandes tradições que nos preparavam para a morte e nos ajudavam a decifrar o sentido das nossas existências.
T. M.
Bibliografia
Ariès, P. (2000). O homem perante a morte (Ana Rabaça, trad.). Mem Martins: Europa-América.
Ariès, P. (1988). O homem perante a morte II (Ana Rabaça, trad.). Mem Martins: Europa-América.
Barros de Oliveira, J. (1998). Viver a morte: Abordagem antropológica e psicológica. Coimbra: Almedina.
Bernardo, M. (1999). História dos cuidados paliativos in J. Luís Portela e Isabel Galriça Neto (coord.). Dor e Cuidados Paliativos. Lisboa. Permanyer Portugal.
Davies, J. (1999). Death, Burial and Rebirth in the Religious of Antiquity. Londres. Routlege.
Hennezel, M. e Leloup, J. (1998). A arte de morrer (Gemeniano Franco, trad.). Lisboa: Editorial Notícias.
Kastenbaum, R. e Aisenberg, R. (1983). Psicologia da morte. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.
Kübler-Ross, E. (1991). Sobre a morte e o morrer (Paulo Menezes, trad., 4ª edição). São Paulo: Martins Fontes.
Oliveira, A. (1999). O desafio da morte. Lisboa: Editorial Notícias.
O Livro dos Mortos do Antigo Egipto (1991) (Maria Helena Trindade Lopes Trad.). Lisboa. Assírio & Alvim.
Poirier, J. (1998). História dos Costumes: as técnicas do corpo. Lisboa. Estampa.
Thomas, L. V. (1992). Les rites funeraires. Editions Archeologia, nº 8, L 3440.
Thomas, L. V. (1992a). La mort qui change. Thanatologie. nº 89/90 (5-19)
Vanoyeke, V. (1999). L' Egipte inconnue. Science et Vie. Nº 982 (49-64)
Notas
1 De acordo com Thomas (1992) as primeiras inumações intencionais datam aproximadamente de 100 000 anos.
2 A presença de um traçado electroencefalográfico nulo durante 36 a 72 horas define a morte para os biólogos (Thomas, 1992a)
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